Há uma tendência para olhar para a regulação como aquilo que vem limitar a liberdade de quem está a fazer negócio. Eu vejo-a de outra forma. Num setor onde as decisões têm impacto direto na vida financeira das pessoas, acredito que a exigência não é um obstáculo ao crescimento, mas uma condição para que esse crescimento seja sustentável e mereça a confiança de quem nos procura. Não tenho medo de regras mais exigentes. Tenho medo de setores onde a falta de exigência acaba por nivelar todos por baixo.
Qualquer nova exigência implica adaptação e obriga a rever processos, a investir em conhecimento e a assumir responsabilidades que, muitas vezes, têm custos que não são imediatamente visíveis. Um negócio não se constrói apenas a partir daquilo que é mais fácil fazer, mas também a partir das escolhas que fazemos quando temos de decidir que tipo de empresa queremos ser e que relação queremos estabelecer com quem confia em nós.
É por isso que não vejo a regulação como algo que deva existir para impedir a iniciativa ou tornar o mercado mais difícil para quem quer investir e crescer. Vejo-a como uma oportunidade para aumentar a confiança num setor onde essa confiança é o ponto central. Quanto maior é a responsabilidade de uma empresa perante a vida financeira das pessoas, maior deve ser também a exigência sobre a forma como essa responsabilidade é assumida.
Quando trabalhamos com crédito, seguros ou aconselhamento financeiro, não estamos simplesmente a apresentar produtos. Por detrás de um financiamento para comprar uma casa existe um projeto de vida; por detrás de uma decisão empresarial pode estar o futuro de uma empresa e das pessoas que dela dependem; por detrás de um seguro está muitas vezes a preocupação de proteger aquilo que demorou anos a construir. É difícil olhar para estas decisões como se fossem transações indiferentes.
Essa realidade obriga-nos a pensar de forma diferente sobre o papel de quem trabalha neste setor. A profissionalização não pode ser apenas uma consequência das regras que nos são impostas, tem de ser uma escolha. Transparência e ética só têm verdadeiro significado quando influenciam a forma como uma empresa toma decisões e, sobretudo, quando continuam presentes nos momentos em que fazer aquilo que é certo pode não coincidir com aquilo que é mais rentável.
Cumprir uma regra deve ser o ponto de partida, não o ponto de chegada. Uma empresa pode cumprir todos os requisitos e, ainda assim, ter uma cultura pouco exigente. Pode conhecer os procedimentos e não compreender verdadeiramente a responsabilidade que tem perante os seus clientes. A diferença está naquilo que fazemos quando temos margem para escolher.
Quando uma regra obriga todos a fazer melhor, não vejo uma barreira. Vejo uma oportunidade para distinguir quem está verdadeiramente preparado.
Um mercado mais exigente pode dificultar a vida a quem procura atalhos ou está habituado a trabalhar com padrões mais baixos. Contudo, não acredito que deva ser visto como uma ameaça por quem está preparado para fazer bem. Pelo contrário, quanto mais elevados forem os padrões, maior será a importância do conhecimento, da preparação e da capacidade de construir relações de confiança no longo prazo.
As regras podem estabelecer mínimos, mas são as empresas e as pessoas que nelas trabalham que decidem até onde querem ir. Porque, no final, regras mais exigentes não fecham portas. Mudam, isso sim, quem está preparado para as abrir.
